Fim das “barbas indomadas”
Pragmatismo vence as diferenças ideológicas, em prol de resultados nas urnas
Aline Moura
alinemoura.pe@dabr.com.br
Não foi só a bandeira “Fora, FMI” que ficou esquecida no passado do PT. O viés ideológico está cada vez mais distante da legenda que, na década de 80 e 90, arrastava militantes pelas ruas sem necessidade de pagar um tostão por isso, a chamada “onda vermelha”. O pragmatismo, enfim, parece estar vencendo o lado mais emocional e ideológico da sigla. As duas últimas semanas foram marcadas por episódios que, no século passado, seriam capazes de fazer o mundo petista ruir. Mas é claro, não é novidade: o tempo de barbas “indomadas” e da troca de cadeiradas em debates acalorados do PT passou.
![]() Jorge Perez, presidente estadual do PT, acredita que não é mais tempo de ataques pessoais na polÃtica. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press – 25/02/2010 |
O pragmatismo na legenda idealizada por trabalhadores não pode ser generalizado, porque ainda existem os que nadam contra a maré e dividem o mundo polÃtico entre o bem e o mal, esquerda e direita. Em junho passado, por exemplo, um dos fundadores do PT maranhense, Manoel da Conceição, precisou ser socorrido após passar cinco dias de greve de fome na Câmara dos Deputados, em protesto pelo apoio do partido à candidatura de Roseana Sarney (PMDB-MA). Com a saúde debilitada, Manoel terminou sendo ouvido pela cúpula petista e conquistou o direito de apoiar Flávio Dino (PCdoB) ao governo do Maranhão, de forma independente. Resistências como essa, contudo, são cada vez mais raras. A linha estabelecida entre os campos “direita e esquerda” partiu.
Na última quarta-feira, o candidato ao Senado pelo PT, Humberto Costa, surpreendeu parte da militância ao defender a aliança da legenda com Fernando Collor (PTB) e com Roseana Sarney (PMDB), respectivamente candidatos ao governo de Alagoas e do Maranhão. Além de frisar que a aproximação se deu em nome da “governabilidade”, em debate com alunos do Colégio Americano Batista, disse que “era preciso dar a eles o direito de mudar”. “O presidente Lula precisa dessas alianças e as pessoas podem mudar”.
Vice-presidente nacional do PT, Humberto Costa também protagonizou uma cena que retrata o pragmatismo petista na semana retrasada. Não só participou de um evento ao lado do deputado federal Inocêncio Oliveira (PR), na churrascaria Sal e Brasa, como ressaltou que o ex-pefelista é um dos polÃticos mais atuantes de Pernambuco na Câmara. “Divergi dele no passado, mas, nem naquela época, deixei de reconhecer em Inocêncio um dos parlamentares mais atuante do estado”.
Suplicy e Maciel – Outra cena chamou a atenção dos eleitores pernambucanos, ao revelar, no guia eleitoral, um depoimento do senador Eduardo Suplicy (PT-SP) com elogios rasgados ao senador Marco Maciel (DEM). Suplicy chegou a pedir que Maciel tirasse o programa do ar para não constranger os aliados. Mas não escondeu o respeito pelo adversário. “Em 1991, eu era o único senador do PT. Naquela época, apresentei uma proposta que garantia a renda mÃnima para as pessoas mais carentes e recebi o apoio de Maciel e do então senador Francelino Pereira (ex-PFL/MG)”, lembrou, em entrevista ao Diario por telefone. Questionado se não via barreiras em Maciel pelo fato de ele ter apoiado a ditadura militar, Suplicy disse discordardele “nesse aspecto”, mas reforçou que isso não impedia o “respeito” mútuo.
Segundo o presidente estadual do PT, Jorge Perez, as mudanças não acontecem só no PT, mas em toda sociedade. “O debate polÃtico e a disputa eleitoral precisam sair dessa seara onde um desqualifica o outro. O PT tem o mérito de aglutinar todas as representações polÃticas em torno de um projeto para o paÃs”.
















