Vicente Pinzón e Joaquim Nabuco, vultos esquecidos no Cabo de Santo Agostinho

Por: Jairo Lima

O escritor espanhol Max Dub certa feita falou: “Há três categorias de homens: a) os que contam a sua história; b) os que não a contam; c) os que não a têm. “. Fica no mínimo estranho classificar o atual gestor municipal na categoria dos não a contam. Não faz muito tempo, e nossa cidade foi “entupida” de um marketing, digamos, até meio questinável, para quem acompanha de perto a vida e os cenários políticos local. Carro de som, outdoor, rádios e até mesmo propaganda nas TVs eram uníssonos em dizer: Lula Cabral o Deputado da Cultura, duas vezes ganhador do prêmio Leão do Norte de Cultura.

Na verdade, esse prêmio sempre foi alvo de questionamentos sobre os procedimentos adotados no processo das escolhas. Independentemente do merecimento, o fato é que não existe uma política cultural para a cidade e muito menos uma preocupação em manter vivo na memória do nosso povo, fatos e personagens que marcaram e contribuíram para a construção da nossa identidade e história.

Vicente Yanez Pinzón saiu da cidade de Palos de la Fronteira na Espanha e aportou aqui em 26 de janeiro de 1500. O navegar que participou com Cristovão Colombo na histórica viagem do descobrimento da América em 1492, quando guiou suas velas na direção das desconhecidas terras brasilis, mas precisamente no nosso litoral, batizou nossa cidade de Santa Maria de la Consolación. A partir de então ficamos conhecidos pelo mundo todo.

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo nasceu no dia 1849, antiga Rua Aterro da Boa Vista nº 39, atual Rua da Imperatriz, em 08 de dezembro do mesmo ano, veio morar com os padrinhos no Engenho Massangana onde foi batizado e viveu boa parte da sua infância. Nabuco foi um dos grandes diplomatas do Império, além de orador, poeta e memorialista. Se opôs de maneira veemente à escravidão, contra a qual lutou tanto por meio de suas atividades políticas e quanto de seus escritos. No livro Minha Formação, se refere carinhosamente a nossa cidade:

Os primeiros oito anos da vida foram assim, em certo sentido, os de minha formação, instintiva ou moral, definitiva… … Passei esse período inicial tão remoto, porém, mais presente do que qualquer outro, em um engenho de Pernambuco, minha província natal. A terra era uma das mais vastas e pitorescas da zona do Cabo [...] De todas as impressões nenhuma morrerá em mim. Os filhos dos pescadores sentirão sempre debaixo dos pés o roçar das areias da praia e ouvirão o ruído da vaga. Eu por vezes acredito pisar a espessa camada de canas caídas da moenda e escuto o rangido longínquo dos grandes carros de bois……[3]”

Não há no calendário oficial do município até o presente momento, nenhuma atividade ou evento previsto para este ano, quando todo o país comemora o Centenário da Morte de Joaquim Nabuco, apenas a fundação que leva o nome do abolicionista irá entregar a Casa Grande do Engenho Massangana reformada, no Dia da Consciência Negra, 20 de novembro. Bem como acontece, já por seis anos seguidos, nenhuma alusão ao fato do descobrimento por Vicente Pinzón, mesmo sendo o dia 26 de janeiro um feriado municipal.

A memória sobre Nabuco aqui, foi amarrada no pelourinho, esquecida, sofre pelas chicotadas do esquecimento e os açoites do desprezo que tanto dói na paixão dos seus admiradores. Pinzón, que além de ter seu busto, obra do renomado artista plástico Abelardo da Hora, esquecido no chão do gabinete do Secretário de Obras da cidade e o obelisco que jaz pela ferrugem em frente da Petroflex, tem igual tratamento, ele que venceu tempestades e mares revoltos, vem sendo constantemente bombardeado pelo descaso municipal, na tentativa de naufragar seu feito histórico, simplesmente o dia 26 de janeiro no Cabo de Santo Agostinho passou a ser apenas um dia para se acender velas em sua memória. Vale aqui lembrar um depoimento do prefeito em entrevista que deu ao Jornal Tribuna Popular, do dia 26 de janeiro de 2006:

“Vamos sempre ficar na mente do povo brasileiro de que o Brasil foi descoberto no Cabo. Eu acho que isso é fantástico e temos que levar em frente e enquanto eu for prefeito dia 26 de janeiro será ponto facultativo como se fosse o “dia de Pinzón”.

- Por favor, excluam o nosso povo dessa ingratidão!

Jairo Lima

Membro da Academia Cabense de Letras e Colaborador do Portal Cabo